Brasil - 1975 /1976
Vivi no Brasil alguns meses, entre Setembro de 1975 e Dezembro de 1976. As circunstâncias políticas do Portugal de então levaram a que muitos portugueses procurassem noutros países condições diferentes (porventura melhores) para viverem as suas vidas. Não procurei essa possibilidade, mas ela aconteceu e vi-me, muito jovem, a viver numa pequena cidade costeira - Rio Grande - do estado mais meridional do Brasil, o Rio Grande do Sul.
Da cidade de Rio Grande, recordo, para além da rua onde vivi, a praça central com a alta torre de comunicações, o porto (o mais importante daquela faixa do litoral brasileiro), o yacht club, a cinzenta igreja matriz e a praia do Cassino, a alguns quilómetros da cidade e onde (coisa a que não estava habituado) as pessoas levavam os carros para a praia, estacionando-os junto a si, à beira-mar.
Penso ter-me integrado bem, fiz amigos, entrei para a Universidade, mas, passados meia dúzia de meses, circunstâncias familiares obrigaram-me a uma mudança para Salvador, a capital do estado da Bahia, no nordeste do país.
Tive que deixar a escola (onde tinha entrado há tão pouco tempo), os amigos que tinha feito e passar de uma pequena cidade gaúcha, onde as estações do ano eram bem marcadas e onde, no Inverno, os termómetros desciam até perto dos 0º C, para a perpetuamente tórrida capital bahiana.
Não sei como teria sido se tivesse podido continuar no Rio Grande do Sul. Penso que se tratou de uma dessas encruzilhadas em que temos que (ou optamos por) seguir por um dos caminhos que se abrem à nossa frente. Dessas ocasiões, fica-me para sempre e de forma recorrente, o sabor amargo de nunca poder saber como teria sido a vida se tivesse seguido por um outro caminho.
Na altura, a viagem foi feita de ónibus-leito. Para quem não conhece trata-se de um autocarro utilizado para viagens longas e em que os bancos rebatem mais do que o normal, podendo-se dormir numa posição muito próxima da horizontal. O itinerário terrestre levou-nos a atravessar os estados de Santa Catarina, Paraná e São Paulo até ao Rio de Janeiro, numa primeira etapa; na segunda, percorremos o estado do Espírito Santo até chegar à Bahia.
Dessa viagem as imagens que se fixaram na minha mente foram as das passagens pelas capitais paranaense e catarinense, respectivamente Curitiba e Florianópolis, esta última um destino agora tão na moda em Portugal; uma breve escala algures numa estação rodoviária na cidade de São Paulo; a vista breve da capital capixaba, Vitória do Espírito Santo e da cidade de Ilhéus, imortalizada nas obras de Jorge Amado.
Não poderia esquecer a primeira vez que pus o pé na maravilhosa cidade. Por ter sido uma estadia curta, de apenas uma noite, apenas recordo ter ficado alojado num pequeno hotel no bairro carioca do Flamengo.
A estadia em Salvador, que durou alguns meses, passou-se sem acontecimentos de maior. Vivi, primeiro, no bairro da Pituba, dentro da cidade propriamente dita e, depois, em Itapoã, uma famosa localidade balnear, a alguns quilómetros do centro, onde o próprio Jorge Amado residia. A casa onde vivíamos estava separada da praia apenas por uma estrada e perto localizava-se a lagoa de Abaeté, de águas escuras e bordejada de dunas de areia branca.
De Salvador, a primeira capital do Brasil e a sua cidade mais "negra", recordo a orla marítima e, na sua parte central, o redondo Forte de São Marcelo, o Mercado Modelo e o Elevador Lacerda, um dos seus ex-libris. Em uma ocasião, visitei de barco as ilhas que se situam próximas à cidade, de que destaco a de Itaparica, onde nadei no meio de cações!
Regressei definitivamente a Lisboa, num domingo de Dezembro de 1976, dia de eleições autárquicas, fechando esse primeiro capítulo do Brasil. Não trouxe uma ideia positiva desse país, trouxe a sensação de que não gostavam lá muito dos portugueses e que, se tivessem podido escolher, preferiam ter sido colonizados por outro país europeu...
Posteriormente voltei ao Brasil e as minhas ideias a respeito desse país evoluíram de forma positiva. Porém, não voltei, até hoje, aos lugares onde vivi...
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